2. Comparação das duas traduções de títulos de contos de Katherine Mansfield.
a) At the Bay – Um dia em Crescent Bay – Na Baía
A segunda opção de tradução “Na Baía”, adotada por Alda Rodrigues, é a tradução literal do título em inglês “At the Bay”. Embora válida, essa tradução remete-me a refletir no efeito que irá ter sobre o leitor. Baía (escrito com B maiúscula) evoca imediatamente no consciente coletivo da CPLP o estado brasileiro Baía. Esse estado, mais do que qualquer outro estado do Brasil, apresenta elementos culturais e históricos (gastronomia, umbanda, quilombos, uma população maioritariamente negra, palavras que etimologicamente têm origem em línguas africanas etc.) familiares a nativos de São Tomé, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Angola, sem contar com Portugal. O estado da Baía é também muito representado e retratado em telenovelas e na própria literatura lusófona. Portanto, não seria de admirar que um leitor lusófono julgasse a capa do livro e, sem ler uma única página, criasse expetativas de uma história que se passa no Brasil.
Manuel Resende, por sua vez, foge da tradução literal ao apresentar “Um dia em Crescent Bay”. O tradutor não só acrescenta informação à tradução (no original, apenas se percebe que se trata de Crescent Bay em Nova Zelândia com a leitura da obra) como também aciona um gatilho inconsciente na mente do leitor que o prepara para ler uma história algures em um país anglófono. Embora em muitos casos a tradução procure fugir de estrangeirismos para evitar estranhamento no público-alvo, temos de considerar que o efeito de ler as palavras Crescent Bay poderá levar o leitor a perceber não algo estranho, mas sim estrangeiro. Isso entra em contraste com a extrema familiaridade que o leitor tem com a palavra Baía.
b) The Garden Party – O Garden-Party – Festa no Jardim
O Garden Party é um conceito do mundo britânico que vai muito além de uma simples festa no jardim. Remete aos tempos coloniais, aos círculos sociais de prestígio, à realeza, a eventos de convivência com um falso tom de informalidade, pois, o objetivo era de reunir os nomes mais conceituados e nobres da sociedade. Embora esse tipo de evento tenha ganho novas características e se adaptado aos tempos modernos, a verdade é que ainda vemos vestígios daquilo que outrora simbolizou. Podemos observar isso na Índia, por exemplo. Em casamentos, quando os anfitriões organizam um Garden Party, a intenção é de mostrar o poder económico da família e o seu prestígio na sociedade. Um Garden Party no jardim de um Mahal (palácio) é, pois, o ápice dessa proclamação de influência social.
Portanto, a opção de tradução apresentada por Manuel Resende parte do pressuposto de que o leitor possui esse conhecimento histórico e social e, se esse conhecimento existir, poderá também ativar a “intertextualidade interna” do leitor que irá fazer associações a livros que já leu, filmes que já assistiu sobre o assunto ou mesmo viagens a lugares que apresentem a realidade do livro.
Mas, se por um lado a tradução de Manuel Resende traz todo este contexto sociocultural, por outro lado poderá causar estranheza a um público-alvo que não tenha esse conhecimento prévio (embora pessoalmente, eu acredito que nos dias tik tok de hoje a expressão Garden-Party seria muito bem aceita). A tradução de Alda Rodrigues “Festa no Jardim” adequa-se perfeitamente se pensarmos em eliminar o fator de estranhamento causado pela expressão inglesa e deixarmos que o leitor por si mesmo compreenda com a leitura da obra o que é verdadeiramente uma “Festa no Jardim”.
c) The Life of Ma Parker – A Vida da Senhora Parker – A Vida de Ma Parker
À primeira vista, podemos defender a tradução de Manuel Resende “A Vida da Senhora Parker”, pois, ao traduzir o título Ma por Senhora, o tradutor evita algo que pode acontecer muito facilmente neste caso, que é o leitor pensar que Ma é o primeiro nome da Senhora Parker. Mas, a mim, salta-me ao coração a tradução de Alda Rodrigues. Isto por causa da familiaridade que tenho com essa forma de tratamento por viver na Nigéria, onde é ainda muito utilizada. E neste caso, até discordo da tradução de Manuel Resende, pois, o peso que a forma de tratamento Ma carrega é muito mais próximo da palavra Dona em português, tanto no sentido do respeito a uma senhora de idade (como o caso da personagem da história, a Sra. Parker) como no sentido de Dona ser a versão feminina do Dom, uma mulher de autoridade.
