Há muito que o debate sobre a Inteligência Artificial (IA) e a tradução encontra-se sobre a mesa. Com tantos avanços tecnológicos e inovações, a pergunta torna-se inevitável: conseguirá a máquina ultrapassar o seu criador? Conseguirá a máquina substituir o homem? Tornar-se-á a profissão de tradutor obsoleta?
Escuso-me de comentar os pontos que já foram exaustivamente abordados nos artigos disponibilizados pela professora para reflexão: a evolução da IA e da sua aprendizagem, o processo de coleta de dados e alimentação da IA, a sofisticação da linguagem da IA que se assemelha cada vez mais à linguagem humana. Antes, gostava de comentar sobre um parágrafo que cativou a minha atenção no artigo Finding a Voice no The Economist:
“That raises questions about what it means to be human. Language is widely seen as humankind’s most distinguishing trait. AI researchers insist that their machines do not think like people, but if they can listen and talk like humans, what does that make them? As humans teach ever more capable machines to use language, the once-obvious line between them will blur.” [1]
Começarei por, sem humildade nenhuma, discordar de que a linguagem é a caraterística mais distinta do homem. Sim, obviamente que de todos os seres biológicos, o homem é o único que domina a linguagem verbalizada (os papagaios que me perdoem). Na minha (desta vez humilde) opinião, o que torna o ser humano único é a sua humanidade. A definição de humanidade pode nos levar a um infinito debate filosófico, por isso, focarei no nosso ponto de interesse que é a interpretação e a tradução.
Read the room
Ou, numa linguagem mais Gen Z, get the vibe. É a capacidade de comprender aquilo que não foi dito e que vai muito além de comprender um contexto. É também diferente de comprender as entrelinhas. Entrelinhas estão associadas à linguagem verbal, a elementos como ironia, sarcasmo, tom de voz. Não é a isto que eu me refiro. Refiro-me à capacidade de comprender as regras não ditas de uma sociedade, os comportamentos de uma cultura. A interação humana cria formas de comunicação que ultrapassam a linguagem verbal. Por mais que as máquinas consigam reproduzir palavras utilizadas pelos humanos e associar dados e informações para dar a resposta a uma pergunta, as máquinas não vivem em sociedade.
Empatia e tato
Não, não vou indagar se as máquinas têm ou conseguem perceber sentimentos. Falo da empatia do tradutor, que é capaz de perceber os dois lados da moeda, identificar as suas diferenças e os seus pontos em comum. É a capacidade de perceber que a dor da saudade é sentida em todos os humanos e saber como utilizar as palavras para reproduzir essa dor na verbalização. É perceber que a fé do cristão é a mesma fé do muçulmano e dominar as expressões de invocação que cada um utiliza. É escolher suavizar uma expressão infeliz de um interlocutor, é perceber quando uma tradução literal pode iniciar conflitos.
Criatividade e capacidade de criação
Debater se a IA conseguirá algum dia tornar-se igual ou transcender o seu criador é semelhante ao tema se o homem conseguirá alcançar Deus. A tese sobre a transcendentalidade de Deus nos leva a refletir no propósito da humanidade. Tal como mencionado no artigo, a sofisticação das máquinas tem como objetivo libertar o homem dos trabalhos rotineiros e criar mais espaço para trabalhos que exijam criatividade e pensamento crítico. Nesta era tecnológica em que vivemos, temos de recordar que como humanidade, precisamos transcender. Para o tradutor, não se trata apenas de se tornar um revisor de traduções assistidas ou de se converter em um engenheiro de softwares de tradução. Trata-se também de inovar, de criar, de abraçar a arte do ofício.
Em suma, o viver em sociedade (que gera diferentes culturas), a empatia, a criatividade e tantas outras características que definem a humanidade do homem estão ainda longe de serem replicadas pela IA. E, enquanto houver humanidade, os tradutores e intérpretes continuarão a serem assistidos e não substituídos por computadores.
[1] https://www.economist.com/technology-quarterly/2017-05-01/language
